Silval aponta mentira de Riva em depoimento a PC

Em depoimento prestado junto à 7ª Vara Criminal de Cuiabá, o ex-governador Silval Barbosa (PMDB) confessou que liderou um esquema de cobrança de propina durante sua gestão em Mato Grosso e negou ter pressionado ou ameaçado secretários para cometerem crimes. “Eles não eram pressionados, eles iam com maior prazer principalmente porque sabiam que tinha vantagem. Assim como os empresários: só fazem porque tinham vantagem. Nunca eu cheguei a uma pessoa e falei: 'Você é obrigado'. Em nenhum momento, eles faziam com satisfação”, disse Silval ao ser reinterrogado no processo penal oriundo da 2ª fase da Operação Sodoma na tarde desta segunda-feira (17). De acordo com o peemedebista, o esquema foi criado para quitar dívidas de campanha. 

Perante a juíza Selma Arruda, Silval Barbosa isentou o ex-secretário Pedro Nadaf e mais cinco do esquema de cobrança de propina envolvendo a empresa Consignum. Em contrapartida, garantiu que o crime foi todo arquitetado e executado pelo ex-secretário Cézar Zilio. “Convidei ele para assumir a secretaria e, no início, havia muitas dívidas de campanha. Ele era uma pessoa de bastante confiança, e pedi para ele ajudar a resolver essas dívidas. Eu falei para ele da Consignum, e ele conversou com o Wilians Mischur. Ficou acertado que Mischur pagaria de R$ 400 a R$ 500 mil por mês de propina”, detalhou. 

Do montante repassado mensalmente pelo empresário, o ex-chefe do Executivo Estadual afirmou que ficava com R$ 240 mil, que recebia das mãos de Zilio, durante os 30 meses do contrato, o que resultaria em cerca de R$ 7,2 milhões em propina no período. Isto porque, era o ex-secretário o responsável pela arrecadação da propina. 

Conforme relatos de Silval, Zílio continuou arrecadando a propina mesmo depois que deixou o primeiro escalão estadual. “Como o Cesar Zilio já controlava isso, ele continuou operando isso durante uns meses. Mas depois de certo tempo, ele nem me passava mais o dinheiro”, contou o peemedebista. 

Diante disso, em dezembro de 2013 o ex-governador disse que chamou Pedro Elias para assumir a Secretaria de Administração e retomar a rotina normal de pagamentos de propina. Vale lembrar que, tanto Zílio quanto Pedro Elias são delatores do esquema. “O Pedro Elias passou só uma vez o recebimento para mim, no valor de R$ 500 mil. Ele ficou com R$ 100 mil”, relatou. 

Acontece que, neste mesmo período, Silval disse que foi procurado pelo ex-deputado estadual José Riva para tratar sobre o assunto. Na oportunidade, o ex-parlamentar teria dito que tinha uma empresa interessada para operar os empréstimos consignados no lugar da Consignum. “O Riva vinha com força política e cobrava duro. Eu chamei o Pedro Elias para resolver a situação, não queria briga com o Riva, não queria briga coma a Assembleia. Então falei para ele abrir uma concorrência e pedi para ele conversar com o Riva. O Riva apresentou a empresa Zetra, ele sabia do esquema da Consignum e dizia que a Zetra iria ajudar mais”, detalha o peemedebista. 

Na época, a empresa indicada por Riva chegou a ganhar a concorrência pública. Contudo, a Consignum conseguiu uma liminar na Justiça para anular a licitação. “Depois disso o Wilians buscava a todo momento falar comigo. Para que eu renovasse esse contrato, mas eu não atendia”, acrescenta Silval. 

De acordo com o ex-chefe do Executivo Estadual, Mischur foi conseguir falar com ele durante um feriado que passava na casa de seu irmão. Silval afirma que ele chegou dizendo que queria renovar o crédito, pois estava o afetando. “Ele alegava uma série de situações. Eu disse que não queria mais briga com a Assembleia e com o deputado Riva. Ele chegou a dizer que já tinha falado com o Paulo Taques que caso o grupo dele ganhasse a eleição o contrato dele ia ser mantido”, pontua. 

Diante disso, o ex-governador afirmou que pediu para que o empresário acertasse a situação com o então deputado Riva. “Eu sei que o Wilians foi junto com o Pedro Elias na casa do Riva e eles se acertaram. Até então era 2,5 milhões. Quando o Riva disse que eu devia ele, é mentira, eu não devia nada para ele. O Riva ia enfrentar uma candidatura majoritária pra governador e precisava desse contrato para isso. Eu não determinei ao Pedro para tratar esse assunto com Riva, só falei para ele acabar com esse cabo de guerra entre Governo e Assembleia. Só depois eu fiquei sabendo que ele recebeu”, esclarece. 

No total, Silval afirma que recebeu R$ 7,2 milhões a título de propina do empresário Willians Mischur. Segundo ele, a propina foi paga pelo período de 30 meses, não ultrapassando o montante de R$ 240 mil por mês. “Tinha mês que era R$ 210 mil, R$ 220 mil", disse. 

O ex-governador ainda garantiu que nunca tratou desse esquema da Consignum com seu ex-assessor Silvio Araújo, com o ex-secretário adjunto de Administração, José Cordeiro, com o ex-chefe da Casa Civil, Pedro Nadaf, nem com o ex-secretário de Estado de Fazenda, Marcel de Cursi. Os quatro também são réus neste processo. 

Além disso, Silval também isentou seu filho, o empresário Rodrigo Barbosa, nesses pagamentos específicos. “O Silvio uma vez foi pegar o valor para mim com o Pedro Elias, mas ele não sabia de nada. Nesse negócio nem o Rodrigo Barbosa sabia, era amigo pessoal do Pedro Elias apenas”, frisou. 

Em contrapartida, admite que seu filho recebeu propina da empresa Webtech, do empresário Julio Tisuji. Silval explica que não participou deste episódio e afirma que só tomou conhecimento desde esquema por meio da denúncia oferecida pelo Ministério Público Estadual (MPE). “Nunca acertei nada com o Julio. Tomei conhecimento que o Cesar zilio acertou com ele e cobrou propina dele durante dois anos. Sei que quando o Pedro Elias assumiu a secretaria ele procurou o Julio e também acertou com o Julio. Isso eu fiquei sabendo depois que parte desse dinheiro era passada pelo Pedro para o meu filho”, disse. 

Esta é a primeira vez que Silval comparece em juízo após ter a sua prisão preventiva revertida em prisão domiciliar. Ele ficou quase dois anos preso no Centro de Custódia de Cuiabá. O ex-governador agora é réu confesso dos esquemas oriundos da Operação Sodoma. 

Silval Barbosa afirmou que durante a sua gestão a frente do Palácio Paiaguás também houve um esquema envolvendo gráficas, o qual foi executado para beneficiar o prefeito cassado de Várzea Grande, Wallace Guiamarães (PMDB). 

A intenção era garantir recursos para a campanha de prefeito do peemedebista. “O Walace era deputado estadual e estava concorrente a campanha para prefeito de Várzea Grande. Ele se reuniu comigo e disse que precisava da minha ajuda. Ele disse que esteve na secretaria conversando com o Cesar Zílio, e afirmou que conhecia algumas gráficas que participaram da licitação e queria que eu autorizasse as gráficas para dar um retorno a ele”, detalhou Silval. 

Diante do “pedido” de Wallace, o governador disse que consultou o ex-secretário de Administração Cesar Zilio para verificar a possibilidade. Na oportunidade, Zilio teria garantido a Silval que dava para fazer alguns contratos.“Eu autorizei e foi feito, mas nunca estive com nenhum dono dessas gráficas. O Cesar e o Walace dizem que me passaram R$ 1 milhão. Eu não lembro, mas como era muita coisa pode ser que sim. O Cesar ficou com R$ 1 milhão e pouco”, relatou. 

Vencedor da eleição municipal de 2012 em Várzea Grande, Wallace Guimarães teve o mandato cassado em 2015 por gastos ilegais de campanha. O esquema envolvendo o ex-prefeito veio a tona por meio da delação premiada de Cézar Zilio.

 

Fonte: Kamila Arruda

Diário de Cuiabá

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