Cabo Gerson afirma ter destruído HD com áudios dos grampos ilegais

O cabo da Polícia Militar, Gerson Luiz Corrêa Júnior, considerado como uma das peças centrais no esquema de interceptações telefônicas ilegais em Mato Grosso, resolveu confessar os crimes cometidos pela suposta organização criminosa que estaria por trás dos grampos. Gérson está preso desde 23 de maio deste ano, acusado de ser o principal operador das interceptações telefônicas clandestinas no Estado.

Na segunda-feira (16), o cabo esteve no complexo Miranda Reis e prestou depoimentos aos delegados Flávio Stringueta e Ana Cristina Feldner, que preside na Polícia Judiciária Civil (PJC) o inquérito policial que apuras as interceptações telefônicas ilegais. Documentos obtidos pelo pelo FOLHAMAX mostram que ele confirmou que o coronel da Polícia Militar e ex-secretário da Casa Militar, Evandro Lesco, mantinha o escritório do grupo em Cuiabá ao custo de R$ 1,2 mil mensal.

As interceptações clandestinas eram captadas numa sala comercial no Edifício Master Center, região central de Cuiabá. A sala era alugada no nome de Gérson Corrêa.

Gerson Corrêa também afirmou que o ex-chefe da Casa Militar fez um depósito de R$ 30 mil em sua conta para aquisição de equipamentos e a documentação do sistema de interceptações telefônicas ilegais. O valor, segundo ele, foi transferido para a conta de José Marilson da Silva, dono da empresa que forneceu o equipamento ao grupo.

O cabo relatou ainda que as ordens para realizar os grampos partiam de Lesco e do também coronel da PM, e ex-comandante Geral da Polícia Militar de Mato Grosso, Zaqueu Barbosa. Ele afirmou que os dois se reportavam ao ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques, também preso nas investigações das interceptações clandestinas. 

Corrêa, porém, disse aos delegados que acredita que o governador Pedro Taques não tenha envolvimento com os fatos investigados. Ele afirma que nunca presenciou Zaqueu ou Lesco citando o nome do governador durante reuniões sobre o esquema.

SAÍDA

Durante depoimento realizado na tarde de ontem, Gérson Corrêa saiu com policiais para cumprimento de diligências que pudessem colaborar com as investigações. Segundo informações, eles foram se encontrar com o empresário José Marilson da Silva,que havia declarado que os equipamentos usados no esquema de grampos ilegais estavam com o militar. 

Corrêa, porém, disse que tinha ficado apenas com o HD que teriam as interceptações armazenadas. Ele revelou que destruiu o equipamento.

Durante as diligências, Marilson entregou aos policiais o “hack do Sentinela”. Já a chipeira  e a CPU, o empresário informou que foram vendidas. 

ÚLTIMO ATO

Os depoimentos prestados pelo cabo Gérson Corrêa podem ser um dos últimos atos da PJC no caso, uma vez que o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Mauro Campbell Marques, “avocou”, na última quarta-feira (11), os inquéritos que tramitavam no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT) que apuravam a prática de grampos no Estado. Até então, o desembargador Orlando Perri era o responsável pela ação judicial no âmbito do Poder Judiciário estadual.

Com isso, caberá ao ministro designar os próximos atos das investigações.

Gerson Corrêa Júnior é um dos denunciados numa ação proposta pelo Ministério Público Estadual (MP-MT). Ele é acusado de falsificação de documentos, falsidade ideológica, e crime continuado “por mais de sete vezes”, podendo ficar pelo menos 7 anos preso. Dependendo de sua colaboração nas investigações, porém, este tempo pode ser reduzido. 

De acordo com a denúncia, o cabo PM foi um dos responsáveis pela “viabilidade técnica” além de garantir a “elaboração do projeto” do sistema de interceptações telefônicas. Ele está preso desde o dia 23 de maio de 2017.

INÍCIO

O cabo da PM contou aos delegados que o esquema de grampos clandestinos no âmbito da Polícia Militar começou em Mato Grosso no ano de 2014, a pedido do ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques. Segundo ele, o advogado, que está preso desde a "Operação Esdras" pagou R$ 50 mil em espécie para a implantação das interceptações ilegais. Além dele, participavam das fraudes Lesco e Zaqueu Barbosa.

O objetivo, segundo o cabo, era interceptar adversários políticos do grupo. Na época, Paulo Taques era coordenador jurídico da campanha do governador Pedro Taques. 

GRAMPOS

O caso dos grampos ilegais tornaram-se públicos após a veiculação de duas reportagens no Fantástico, da Rede Globo – em maio e julho de 2017. 

Jornalistas, médicos, advogados, políticos e até uma ex-amante do ex-secretário da Casa Civil, Paulo Taques, sofreram interceptações telefônicas clandestinas que teriam sido feitas por policiais militares. O caso é conhecido como “barriga de aluguel”, onde pessoas que não são investigadas ou denunciadas sofrem os grampos, em tese por interesses pessoais, ao lado dos verdadeiros suspeitos de processos na Justiça ou investigações das forças de segurança.

Além do coronel PM Zaqueu Barbosa – preso 9 dias após a veiculação da reportagem no Fantástico, que foi ao ar em 14 de maio de 2017 -, o cabo PM Gerson Luiz Ferreira, acusado de ser o operador da central clandestina, também teve mandado de prisão cumprido.

Já na deflagração da operação “Esdras”, no dia 27 de setembro deste ano, foram presos a personal trainer Helen Christy Lesco, o ex-secretário de Justiça e Direitos Humanos, além de coronel da PM, Airton Benedito Siqueira Junior, o também coronel da PM e ex-Chefe da Casa Militar, Evandro Lesco, o sargento João Ricardo Soler, o ex-secretário de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), Rogers Jarbas, além do ex-secretário da Casa Civil, Paulo César Zamar Taques. Todos são acusados de obstrução à Justiça.

 

Fonte: Diego Frederici

Site Folha Max

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